Carpe noctem

A moda burra nas academias de ginástica

Compartilho um texto de autoria do Marcelo Câmara recebido por mim via e-mail sobre a estúpida visão moderno-ocidental da atividade física. Trata-se de uma jóia enviada ao jornal "O globo" e, obviamente, jamais publicada. Porque há coisas que só alguns poucos enxergam. Eu, cada vez mais, me sinto um privilegiado por fazer parte dessa minoria. Enjoy yourselves!

As opiniões expostas na matéria Na sintonia das batidas perfeitas, sobre música nas academias de ginástica, publicada na edição de domingo, 15.3.2009, são uma reunião de frivolidades, ditas por gente que não conhece, se nega a estudar o assunto ou se encontra, patológica e comercialmente, engajada numa moda generalizada, burra, tola e nociva. O barulho de um motor de caldo de cana, quase sempre ensurdecedor, denominado “música”, nas academias, é uma prática insana, maciça, predominante em todo País. Uma droga perturbadora, adotada sem prescrição médica, sem nenhum fundamento técnico ou base científica. Cada indivíduo tem o seu próprio ritmo orgânico e mental, cada exercício tem, também, o seu próprio ritmo e determinado exercício praticado por determinada pessoa tem um terceiro ritmo. Não existe uma música ritmada que marque todos os exercícios aeróbicos e de musculação de todas as pessoas, dentro ou fora piscina. Ginástica exige atenção, disposição, concentração e realização responsável, sintonia, ritmo, harmonia entre mente e corpo, orientação, obediência às regras da sua execução. Esse som que transforma academia em boate de meretrício e botequim desprezível, com cerveja quente e música alta, apenas aliena o indivíduo de si mesmo, afasta o praticante da ginástica do seu exercício, dispersa os sentidos, o desconcentra, “distrai” como admite um dos entrevistados, quando a sua mente, o seu corpo, postura, respiração, todos os sentidos deveriam estar dirigidos e empenhados no próprio exercício. O barulho na academia, que os seus adeptos chamam de “música”, e geralmente da pior qualidade, só faz entorpecer e imbecilizar ainda mais os alunos de academia. Música é uma arte para ser ouvida, tocada ou dançada em lugar e momento apropriado. E música-ambiente ritmada não se adequa a um lugar multidisciplinar, onde diversas pessoas devem estar concentradas, executando as lições de diversos exercícios com diversas durações e de diversos ritmos, alguns alongando músculos e tendões, outros em práticas aeróbicas (esteira, bicicleta etc.), e terceiros fazendo musculação. A rigor, a princípio, em tese, nenhuma música – de excelência, mediana ou ruim, popular, folclórica ou erudita – deveria estar em espaço multidisciplinar, plural, de academia alguma. A música era, outrora, seletiva e específica marcando os pontos dos exercícios da milenar calistenia, da ginástica de solo clássica, com ou sem halteres, barras e bastões, e hoje, também seletivamente, pode fazer parte dessa ginástica marcada, e, ainda, da ginástica artística e de certos exercícios da ginástica olímpica. Os compêndios e manuais clássicos da matéria, os livros de Educação Física e de Ginástica de autores de prestígio internacional, editados nos EUA, na Europa e Oriente, recomendam a prática da ginástica sem música. Entre nós, o consagrado Nuno Cobra orienta no mesmo sentido. A música ouvida por um atleta individualmente no seu treinamento, e na ginástica, também individualizada de uma pessoa, é válida, estimulante, até útil, necessária. Da mesma forma, um grupo praticando exercício único, coletivo, ritmado, com um guia, professor ou orientador, tem na música um auxiliar didático-pedagógico válido, importante. “Eliminar o baticum irracional e torpe das academias parece impossível, a reação contrária é quase absoluta” – justificam-se os professores. Quando, milagrosamente, a aparelhagem de som pifa e os sons e ruídos são apenas das pessoas, professores e alunos, já ouvi algumas pessoas, uma minoria, é claro, exclamarem: “Que bom sem música, parece que tudo sai melhor, com mais acerto e rendimento...Mas estamos numa democracia, o regime das maiorias que crucificaram Cristo, glorificaram Hitler e elegeram, duas vezes, Bush. E, infelizmente, enquanto não prevalece a razão, reina “o melhor critério”: o das maiorias, mesmo que insanas. O escapismo irracional do falso bordão “gosto não se discute”, e se discute sim, em todos os campos do pensamento, da arte e do comportamento humano; e a resposta vazia e irresponsável dos donos de academia e seus professores “Não se pode agradar a todos, cada um tem um gosto...” – apenas confirma a asneira segundo a qual o aluno de academia é quem deve determinar o que deve ser feito e como deve ser feito. Seria como um paciente dizer ao médico que quer tomar tal remédio, fazer tal terapia, durante o período “x” e na forma “y”. O barulho nas academias é um instrumento a transformar alunos de educação física em consumidores tontos, alienados e dóceis, que cumprem séries de exercícios sob intenso e desconcertante barulho, suam, falam alto para serem ouvidos, suam mais um pouco e vão para casa esgotados, meio surdos, certos de que fizeram bem ao corpo, à mente, melhoraram a saúde. Realmente, apenas e literalmente, “malharam”, agrediram bastante o corpo, se esgotaram, como estivessem num trânsito engarrafado, sob um buzinaço. Mas não praticaram ginástica de forma inteligente, segura, responsável e saudável.

Marcelo Câmara (Marcelo Nóbrega da Câmara Torres - Angra dos Reis, 1950) é jornalista, crítico, ensaísta, editor, consultor cultural, é formado em Direito e em Comunicação Social, pela Universidade Federal Fluminense - UFF. Atua, desde 1968, como criador, crítico, técnico e administrador, acumulando vivências e realizações nos mais diversas áreas da Cultura. É aposentado como Consultor Legislativo do Senado Federal, função conquistada por concurso público de provas e títulos, promovido pela Universidade de Brasília - UnB, durante todo o ano de 1984.

Retirado de www.ilhaverde.net

- Postado por Júliox, admirador da arte de expor a maior virtude humana: a capacidade de transformar em merda basicamente tudo que "toca".

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